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Linguagem neutra, um conhecimento essencial na atualidade

Linguagem neutra, um conhecimento essencial na atualidade
Elisa Carletto
set. 17 - 10 min de leitura
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Introdução

       Inicialmente, é importante ressaltar que línguas humanas são dinâmicas, ou seja, possuem configuração estrutural sujeita a constantes mudanças ao longo do tempo. 

       Assim, pode-se afirmar com certeza que a língua falada hoje sofreu alterações no passado.

       Linguística histórica é o nome do ramo da linguística que estuda as mudanças da língua — sendo nas esferas fonético-fonológica, morfológica, lexical, sintática, semântica ou pragmática. Também possui o papel de tornar o falante consciente de que todas as línguas mudam continuamente, de maneira lenta e gradual.

 


 

Por que adotar uma linguagem neutra?

       Em 2017, Lenna Boroditsky falou sobre a linguagem moldar a maneira que pensamos. Usando o exemplo das línguas alemã e espanhola — que, assim como o português, atribuem gênero a seres inanimados — ela mostra como opiniões acerca de objetos podem variar conforme o gênero atribuído à palavra. “Ponte” costuma ser caracterizada como “elegante” e “bela” por falantes de Espanhol, que a têm flexionada no feminino; enquanto como “forte” e “grandiosa” por falantes de Alemão, que a têm no masculino.

       Tal exemplo ilustra como a linguagem pode servir de ferramenta para a manutenção da visão binária do mundo. Desde crianças, a sociedade nos ensina a dividir palavras, pessoas e objetos entre feminino e masculino — somos alunos e alunas nas escolas, filhos e filhas em casa, senhores e senhoras na plateia e sempre definidos por sexo e gênero, que só podem ser dois.

       Em Um ensaio sobre Sexo e Gênero, explicita-se a maneira como o binário masculino-feminino é incapaz de traduzir a existência de todos os indivíduos de uma sociedade que abrange pessoas intersexo e não-binárias.

       Assim, tendo em vista que (1) a linguagem coopera para configurar a maneira de enxergarmos o mundo e (2) o mundo vai muito além de o binarismo de sexo e gênero, então (3) nada mais óbvio que adaptarmos nossa língua, para que ela então passe a abranger e integrar todas as pessoas da sociedade, promovendo portanto inclusão e aceitação.

       Se negar à adoção de uma linguagem neutra é uma postura conservadora, preconceituosa e privativa; é uma rejeição da atualidade, das tendências de ampliação do nosso entendimento do mundo e da humanidade. 

 


 

“Mas não faz sentido com o português!”

       Antigamente, as línguas indo-europeias utilizavam o pronome neutro para seres inanimados, enquanto pronomes masculino e feminino para pessoas. No latim, porém, todos os três pronomes eram utilizados para seres inanimados, não somente o pronome neutro.

       Por conta dessa classificação latina de dar gênero ao inanimado, equívocos referentes ao emprego no gênero neutro foram cometidos ao longo da história, com escritores latinos utilizando frequente e erroneamente o masculino no local ideal do neutro — Plauto usou dorsus no lugar de dorsum, Petrônio escreveu balneus ao invés de balneum e Lucrécio, caelus ao invés de caelum.

       No latim vulgar também houve uma confusão fonética acerca do masculino-neutro. Com a queda do -s (masculino) e do -m (neutro) ao fim das palavras faladas, tornou-se impossível diferenciar o gênero neutro de palavras como templu(m) e cornu(m) do masculino de palavras como cantu(s) e hortu(s), pois, sem a última letra, tornam-se iguais.

       O desaparecimento do pronome neutro no latim então deu-se pela confusão entre neutro e masculino e pelo apagamento da marca fonética do neutro nas palavras.

       Assim, palavras do gênero neutro com terminação idêntica à de palavras masculinas foram absorvidas ao masculino, enquanto palavras neutras terminadas em -a, pelo feminino.

       Essa assimilação de palavras para o grupo das masculinas ou femininas é o que acredita-se ser a regra geral para a origem da classificação relativa a gênero no português.

       Por mais que passado por tais alterações de abandono ao neutro, o português atual ainda possui alguns resquícios da noção de neutralidade, como no grupo de pronomes relativos “tudo”, “isso”, “aquilo” e “algo”.

       Ou seja, a adoção atual de um pronome neutro visando a integração na sociedade de pessoas marginalizadas não significa um “atentado” à língua portuguesa, mas sim um resgate do termo perdido na história.

       Do mesmo jeito que ele e ela são originárias do latim ille e illa, a proposta do elu é derivada do latim illud.

 


 

Já é uma realidade

      Por mais que muitos conservadores insistam em dizer que a linguagem neutra é uma ilusão existente apenas em redes sociais, a realidade corporativa aponta para o contrário.

      Grandes empresas, fundações, ONG’s e sociedades anônimas já adotam a linguagem neutra em seu cotidiano formal. Forbes, Apple, Levi’s, Microsoft, Facebook, LinkedIn, Twitter, IBM, ThoughtWorks e Air Canada são apenas alguns exemplos de corporações que utilizam a linguagem neutra de gênero no cotidiano.

      O fato de nunca termos percebido isso significa que a inclusão não é tão difícil quanto parece e pode ser feita de maneira acessível até para os que possuem resistência à adoção do pronome neutro, que é apenas uma das características de uma linguagem neutra de gênero.

 


 

Como usar uma linguagem neutra de gênero sem imediatamente adotar elu/delu

       Como dito no início, as mudanças na linguística ocorrem de maneira lenta e gradual. Portanto, não há a necessidade instantânea de sempre falar segundo o Sistema Elu - por mais que esse seja sim o objetivo final -, porque entende-se gerar um estranhamento imediato.

       Desde a infância há o treinamento e a repetição de escrita, leitura, fala e audição de tudo flexionado no feminino ou no masculino, então é natural que seja difícil o processo de adaptação com palavras neutras. Com esforço, erros e acertos é que alcançaremos facilidade para uma linguagem inclusiva.

       Um bom início para a busca da neutralidade na língua é a simples exclusão do gênero em setores que não clamam por flexão de gênero, o que já torna o texto bastante inclusivo.
      Ex: “Os colegas planejaram uma surpresa” » “Colegas planejaram uma surpresa”
             “As testemunhas alegam ser falso” » “Testemunhas alegam ser falso”

       Ou então, diante de uma situação que requer artigo ou pronome, podemos optar pelo já existente e comum neutro (de).
      Ex: “Almocei na casa da Amanda.” » “Almocei na casa de Amanda.”
             “Estou com saudades da Marina.” » “Estou com saudades de Marina.”
             “Algumas tarefas são de responsabilidade dos líderes.” » “Algumas tarefas são de responsabilidade de líderes.”

       E há várias outras maneiras de evitar o uso do gênero masculino no lugar do neutro sem necessariamente utilizar o pronome elu/delu, o que já é um grande passo, pois promove a neutralidade do texto. 
      Ex: “O leitor se sente incluído.” » “Quem lê sente inclusão.”
             “Curiosos pararam para ver a situação.” » “Pessoas curiosas pararam para ver a situação.”
             “Cozinheiros desenvolvem muito o paladar.”/ “Quem cozinha desenvolve muito o paladar.”
             “As secretárias estão sempre ocupadas com ligações.”/ “Pessoas que trabalham na secretaria estão sempre ocupadas com ligações.”

 


 

PARA QUEM ESCREVE AO PÚBLICO

       Ao nos referirmos ou tratarmos o público em instância individual, é comum usarmos o masculino, pois temos o costume linguístico de tratar no masculino a pessoa cujo gênero desconhecemos.

       Chamadas publicitárias normalmente utilizam palavras e expressões como “leitor”, “seguidor” e “se você ficou interessado” — e as formas femininas são adotadas ao nos dirigirmos para um público especificamente feminino, o que comumente reforça estereótipos de gênero.

       Inúmeros exemplos de alternativas para uma escrita inclusiva em gênero foi disponibilizada por Paula Ribas, da ThoughtWork Brasil, e ótimos exemplos para quem escreve e fala em nome de corporações são:
        Ficou interessado » Tem interesse? / Interessou-se?
        Mantenha-se atualizado » Continue se atualizando

        Nossos clientes » Clientes da empresa
        Os diretores » A diretoria
        Os coordenadores » A coordenação

 


 

Por que usar o elu/delu, mas não usar x ou @?

       O “x” e o “@” não são pronunciáveis, o que limita seu uso à linguagem escrita e os torna não-acessíveis para pessoas com deficiência visual, que muitas vezes utilizam de leitores de tela para engajarem com textos. Além disso, a falta de impacto na linguagem oral acaba por não promover transformação na forma de nos comunicarmos e vermos o mundo.

 


Para entender mais sobre pessoas não-binárias, pessoas intersexuais e dinâmica social de sexo e gênero, confira Um ensaio sobre Sexo e Gênero.

As informações sobre Latim foram retiradas do artigo O que aconteceu com o Gênero Neutro Latino? Mudança da Estrutura Morfossintática do Sistema Flexional Nominal durante a Dialetação do Latim ao Português Atual.


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