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Desenvolvendo uma vida produtiva silenciando metas disfuncionais

Desenvolvendo uma vida produtiva silenciando metas disfuncionais
Flávia Rosado Lima
fev. 13 - 8 min de leitura
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Antes de começar a falar sobre a produtividade virtuosa, quero trazer algumas crenças disfuncionais sobre como lidar com metas que vi neste TED. Basicamente, ele traz três crenças que desenvolvemos a partir da produtividade tóxica: 1. saber o que fazer no futuro com os estudos; 2. saber qual sua paixão para definir em que ser bem sucedido e 3. ser o seu melhor e não se contentar com quem se é hoje. Para finalizar, ele traz o mindset design thinking como forma de estabelecer metas saudáveis: fazer de forma empírica para desenvolver o futuro: ter curiosidade, manter a mente no processo, partir para uma colaboração radical no desenvolvimento das metas, reformular ideias sempre.
A partir daí, quero trazer uma breve reflexão do que seria o futuro. Com ajuda da Ana Rusche, o futuro nada mais é do que fruto de uma constância palpável (e modificável). Claro, aqui não consigo me atrever às definições do Tempo, nem adentrar no conceito de futuro para a física quântica. É mais simples que isto: futuro não é uma linearidade, não é um "vir a ser", e sim uma confecção de ações rotineiras do que aconteceu, e do que acontece, em espiral. Tão fácil quanto: plantou, colheu.

O problema é que a gente tende a complicar a etapa da plantação, tomando uma cultura de produtividade tóxica como base. Quero deixar claro, antes de tudo, que não condeno utilizar ferramentas para maximizar a produtividade ou criar indicadores de sucesso para acompanhar sua evolução. O problema é que a forma como definimos produtividade e sucesso, e que estas definições podem boicotar o processo de atingir metas. Quando pensamos em produtividade, logo vem à cabeça um processo que gera resultados consistentes às ambições esperadas, o famoso sucesso. Está assim no dicionário e em nossa cultura avassaladora em que o tempo é dono do humano.
Entretanto, não foi assim que inventamos a roda. A partir de uma série de contínuos esforços, sem qualquer ambição (exatamente por nossos ancestrais não saberem o que ela era), sucedeu-se a roda. Foi preciso desacelerar a meta de levar comida para casa e designar bastante energia até o sucesso chegar. A história real de como aconteceu deixo aos antropólogos, mas a ideia de produtividade é esta.

NÃO existe um sistema perfeito, em que seguir um algoritmo irá levá-lx à produtividade ideal - tampouco a necessidade de se estabelecer um sistema. Voltando para o início deste texto, o mindset de design thinking é exatamente o fazer de forma empírica, porque nenhum conjunto de ferramentas atribuído a uma função irá gerar resultado se você não colocar a mão na massa. Na verdade, ser 'improdutivo' com tentativas e erros e deixar fluir irá gerar uma rotina própria, e fará com que a pressão de TER um sistema (que geralmente leva à procrastinação) não seja um empecilho em sua jornada. Usar as ferramentas depois - para ajudar a manter a mente limpa em pequenos compromissos e tarefas - é mais eficiente que se escorar em ferramentas para estabelecer suas rotinas.

Isto afrouxa as metas de seu futuro? Então, novamente, talvez seja melhor rever os conceitos de sucesso. Ser o seu melhor, seguir sua paixão e aplicar seus estudos formais em sua jornada é sucesso? Mas o que é ser o melhor de si, se existem diferentes você? Sou mãe de pet e estudante de segurança cibernética. Conseguiria ser o melhor de mim como mãe de pet criando funções matemáticas para como tratar meus pets e analisando racionalmento suas ações sendo que nem mesmo eles conseguem compreender algumas de suas reações instintivas? Não tenho tempo para estudar comportamente animal no mindset científico, nem aplicar este conhecimento em hábitos, embora seja uma de minhas paixões. Ora, se devo perseguir minhas paixões para ser bem sucedide, devo abandonar a T.I. e virar veterinária, zoólogo talvez?
Nada contra mudança de carreira, até já o fiz, mas esta história de seguir sua paixão é só uma ideia desenvolvida por alguém privilegiado com muito ócio produtivo. Seguir sua paixão é um hobbie, sua vida e sua carreira devem ser baseadas em seguir tentando e errando até descobrir como alcançar o próximo passo (e o incentivo econômico suficiente para você, não sejamos hipócritas). Para isto, nada melhor do que fazer uso de duas habilidades intrínsecas a todos os humanos: ser humano e ser curioso.
Quanto mais buscamos conhecer, mais descobrimos que não sabemos nada: de possíveis carreiras, de conteúdos técnicos, das demandas do mundo, do que os outros podem nos oferecer. Isto não é ensinado em outra escola senão a da vida, e volta ou outra PRECISAMOS identificar que as skills que criamos não são o suficientes para o mundo. Vivemos na era da abstração, da calefação (perdoe-me, Bauman), do multidisciplinar. Nós não conseguimos ser o suprassumo da eficiência de modo individual, para isto existe a tecnologia. O que conseguimos é reinventar nossos papéis, de forma empírica. O que conseguimos é sermos humanos, curiosos às tendências, às histórias e dores que não as nossas - e, por favor, fazer terapia.

"Então você está me dizendo para desestruturar minhas atuais metas em busca de evolução?". Não, amigue. Estou apenas dizendo que o seu sucesso não deve ser sempre (na verdade, para a vida, quase nunca) medido como a quantidade do que você entrega. Você não precisa terminar tudo para começar a ser quem você quer ser. Não está gostando de um livro? Pare e comece outro. Aquele curso está atrasado porque é muito chato? Busque fazer outro mais interessante antes de finalizá-lo. Não sabe o que quer fazer em dois ou dez anos? Faça o que quer fazer AGORA, mesmo que não tenha relação com suas habilidades e educação técnicas. Basta você ser quem é para se conciliar com o que você será. Mas talvez o mais importante de tudo é: faça no seu tempo.
A produtividade está muito associada a conseguir fazer, consumir e ser mais o tempo todo. O que é exaustivo e frustrante. A sua vida não é uma corrida constante de 100 metros rasos, embora em ambientes de trabalho muito competitivos ou em processos seletivos assim possa parecer (inclusive, vai aqui uma dica de leitura bacana para se destacar nos processos seletivos). Seu sucesso deve ser baseado em auto-metas: conseguir fazer o que deseja fazer no tempo que consegue fazer. Quando alcançar esta tarefa, aí então busque aprimorar ou criar novas tarefas. Em blocos de construção mesmo. Cedo ou tarde estará caminhando numa fundação forte. Esta é sua rotina produtiva.

Por fim, quero terminar falando sobre produtividade com o último pilar do mindset de design thinking: manter a mente no processo. Para ser virtuosamente produtivx, o humano deve ser radicalmente colaborativo consigo mesmo e com o outro (somos seres sociais). Não vou entrar em detalhes neurocientíficos de como gostamos de nos boicotar, mas basicamente precisamos continuar lutando incessantemente contra nossa vontade de assentar. Isto só se torna automático quando amamos o processo de evoluir, de entender o outro lado, de nos desafiar ao novo, sempre. E não se engane, só conseguimos isso com muita luta; dar o braço a torcer para o que faz sinceramente sentido ao que você quer para o seu futuro: seja para conteúdos, para oportunidades ou para o orgulho. E se você não sabe o que quer, tudo bem, você não precisa estar pronto, apenas estar disposto. Siga seu instinto. Uma hora as coisas vão se encaixar.

Obs: Vou deixar aqui uma série de fotos maravilhosa da Carrie Mae Weems que encontrei lendo a Taís Bravo para inspirar sua rotina. Seja sempre a mulher à mesa.


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