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T2: Trainspotting - Nostalgia como lembrança ou consequência?

T2: Trainspotting - Nostalgia como lembrança ou consequência?
João Vitor Muniz Buarque
fev. 15 - 6 min de leitura
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De uns anos para cá tem sido uma tendência mídiatica apostar na nostalgia. Desde clássicos cult surrealistas lynchianos como “Twin Peaks” até sitcoms juvenis tipo “ICarly” (que cresceu juntamente com seu público, com piadas mais maduras e adultas), e mais recentemente o “That’s 90s Show”.

Muitas têm sido criticadas por dizerem que “nostalgia não é o suficiente” para se manter a qualidade. E talvez, olhando de um olhar no qual o carinho pela obra não esteja no meio, estejam certos. Pois nessas obras (penso que menos “Twin Peaks: The return”, pois Lynch recebeu carta branca - autorização para fazer o que quisesse -, então ele poderia “surtar” à vontade), normalmente nesses revivals, o presente não é resultado do passado, mas sim um apego. O filme “T2: Trainspotting” é justamente sobre isso: ele não se apega ao passado, mas arca com suas consequências.

“Trainpostting”, de 1996, e sua continuação, de 2017, ambas dirigidas por Danny Boyle, baseadas nos livros de Irvine Welsh (aliás, agradeçam a ele pois uma obra sua foi a inspiração para o nome da banda My Chemical Romance!), que são uma espécie de auto-biografia ficcional em contos de sua vida como junkie na Escócia. E é isso que o primeiro filme se trata: jovens junkies (viciados em drogas pesadas) vivendo suas vidas, em casos amorosos, lutando para coseguir sustentar seu vício, e etc. Mas por que adultos se apegariam a tamanha irresponsabilidade? Embora alguns deles não tenham se ajeitado, é sobre isso sua continuação, principalmente quando não se aprende com ele.

Renton (interpretado por Ewan McGregor, nossos eterno “jovem Obi Wan”, que não está tão mais jovem assim), volta para a Escócia depois de anos terem se passado desde dele ter passado a perna nos amigos para sair daquela vida, graças a diversos fatores de sua nova vida teoricamente confortável terem feito ela ruir. Sick Boy (Johnny Lee Miller) “trabalha” chantageando figurões com a ajuda de sua namorada; Spud (Ewen Bremner) tem problemas com seu filho adolescente e com sua ex-esposa (interpetada pela atriz da Murta-que-Geme de Harry Potter!), mostrando que seu caso no primeiro filme foi para frente até certo ponto; e por fim, Begbie (Robert Carlyle), que foge da prisão, e que está com problemas sexuais e quer que seu filho siga seus passos no crime, e quando descobre que seu ex-amigo traidor Rentou voltou, ele começa a querer se vingar do mesmo.

Tudo isso, mais alguns acontecimentos ao longo do filme, mostram que os ex-garotos, hoje já homens formados, não aprenderam com o passado; por isso não há uma dependência (emocional) dele, mesmo que tudo que aconteça no filme é consequência do que já passaram.

Danny Boyle sabe dirigir um filme. “Trainspotting” foi em seu início de carreira e logo se tornou um clássico da contracultura e do cinema mundial, o segundo eu não catalogo como clássico, porém é uma continuação necessária. Do diretor eu gostaria de recomenda o maravilhoso “Yesterday”, uma homenagem aos Beatles, de 2019, e outro que dispensa apresentações”: “Quem quer ser um milionário?”.

“Escolha seu futuro. Escolha a vida”, é explicado como um slogan antidrogas na época do primeiro filme. Há o monólogo de Renton, que é um ode à contracultura e contra o conformismo presente na sociedade, que para o segundo filme é atualizado, citando o 11 de Setembro, machismo, e etc. Porém é algo confiável de se seguir, vindo de um junkie? É preciso saber desassociar no filme a crítica vai se da exaltação; até que ponto escolher seu futuro é válido? Hoje em dia um burnout é válido? E para escolher a vida, até que ponto você escolhe viver (de fato, com experiências e etc)? Porém é válido viver sem essas escolhas, como eles usavam o slogan de forma sarcástica em 96 e hoje em dia, como uma espécie de aviso?

Então fica o questionamento do filme: o quanto ele é uma crítica e o quanto ele glorifica a situação dos personagens. No fim do segundo filme, Begbie é preso; Sick Boy é abandonado pela namorada, mas recuperou seu melhor amigo; Spud aparenta querer resolver as coisas com seu filho e sua esposa, que decide publicar suas memórias; e Renton recomeça sua vida, talvez não da melhor forma, mas com seus amigos e com seu pai, que não o via fazia tempos, inclusive após a morte de sua mãe, e termina o filme dançando em seu quarto ao som de Iggy Pop, “lembrando” de seu tempo como um jovem dependente. Eles aprenderam com o passado? Não. Querem mudar? Renton queria, mas voltou; o único que quer mudar realmente é Spud, o mais “inocente”, que termina o filme não como o protagonista principal, mas como o “herói”.

O passado pode ser tentador, porém é preciso seguir em frente. Devemos aprender com ele. Que ele não seja apenas memórias gostosas, mas também consequência, seja para nos dar frutos ou para nos fazer mudar. 

Escolha seu futuro. Mas sem nostalgia; que ela seja lembrança, com aprendizado, não a consequência dos seus atos ou o fator que os mova.



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