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Sebos - oásis cultural

Sebos - oásis cultural

Em meio a cultura dos leitores digitais, PDFs e audiolivros, há um pequeno comércio que resiste e se perpetua ao longo dos anos. Hoje, já mais escassos que outrora, esgueirando-se nas selvas de pedras metropolitanas, achar um bom sebo assemelha-se a encontrar uma nascente no Saara.


Imagine que você está caminhando pela sua cidade e no meio de grandes prédios ou lojas de varejo, você avista um pequeno comércio. Você aposta ser apenas mais um café ou algum daqueles barzinhos rústicos frequentado por tipos que acreditam piamente serem diferentes do resto da sociedade. Tão diferentes, que no final, são todos iguais.

Mas ao entrar no estabelecimento, você é arrebatado. Tão logo você trespassa pela porta, sente uma aura diferente e se algum dia inventarem uma máquina do tempo, arrisco dizer que o sentimento será igual. Você sente um odor áspero, um odor velho. Velho, mas não ruim. Velho como um vinho que foi maturado e está pronto para ser degustado.

Você já não se lembra do que existe para trás da porta que entrou, como se estivesse em um limbo. Está entorpecido com o ambiente, e se permite ir mais a fundo. Seus dedos passam por um volume de capa dura, um tanto empoeirado, o título na capa já meio apagado pelo tempo, mas ainda assim você abre o livro. As páginas estão amareladas, mas o texto está nítido, e o título agora revelado na folha de rosto lhe parece bem interessante. Certo de que está diante de um achado, pergunta ao recepcionista o preço da obra. O recepcionista, no fundo da loja um tanto quanto escura, lhe responde que custa singelos R$10,00.

Você já passou por esta experiência?

Tomo o risco de dizer que não houve jamais um projeto de democratização (como assim dizem) de ensino literário tão eficiente quanto os sebos. Se você ainda estiver perdido sobre o que estou falando talvez seja porque não teve a oportunidade de encontrar algum sebo, então permita-me explicar.

Sebos são lojas de livros usados. É como se fosse um brechó, mas de livros. A maioria não se limita apenas a venda de livros, mas vendem também vinis, CDs, HQs, Mangás e até alguns objetos que sequer você imaginaria que eram utilizados. Como quase tudo é de segunda mão (ou terceira, quarta, quinta.. rapaz, tem muita coisa!), quase tudo sai por um preço extremamente acessível. Mas vale ressaltar que em alguns sebos também há produtos novos.

E não pense você, jovem incauto, que pelo fato de ser uma loja especializada na venda de usados que os sebos são uma várzea. Tudo é extremamente bem catalogado e conservado.

 

O desaparecimento das livrarias

Antigamente - e aqui tomo a palavra antigamente simbolizando uma época que antecede meu nascimento, e muito possivelmente, o seu - as livrarias eram como clubes de discussões que intelectuais se reuniam para discutir determinados assuntos. Hoje em dia, o que sobrou disto são saraus universitários que se limitam a leitura de poemas surrealistas e em relativizar a cor da grama.

Mas nem sempre foi assim.

Os sebos, de alguma forma, me passam a sensação de como os fantasmas destes grandes escritores ainda habitam nossas praças. Mas infelizmente, não os encontramos mais com tanta facilidade (nem os sebos, tampouco os fantasmas destas inteligências que visitavam nossos debates).

Nem mesmo boas livrarias estão sendo fáceis de encontrar. É curioso como o número de formandos vem aumentando ao longo do tempo, e em contrapartida, o número de livrarias vem reduzindo. Interessantemente triste, aliás. 

 

Para além dos livros

Os sebos não são apenas uma loja de livros usados, como você pode ter notado. Mas são antes de tudo, um símbolo. Um símbolo que possui seu significado em uma época em que as coisas eram mais simples, e as discussões intelectuais mais sérias.

Um sebo, por si mesmo, é um achado histórico. Se possível, converse com o dono do sebo e sobre a sua jornada. Tenho certeza que você terá boas histórias para escutar. Dito de outro modo, um sebo não é apenas uma arca que guarda história, mas é em si mesma um personagem da história. 

 

Sobre o catálogo

Gostaria de compartilhar com vocês uma experiência que tive.

Entrando em um dos sebos próximo ao meu trabalho, que por sinal, é afastado da capital, dei de cara com alguns livros de literatura clássica, capa dura, lançada pela Editora Abril.

Vi livros de Euclides da Cunha, Guimarães Rosa, Nelson Rodrigues, e tantos outros clássicos nacionais. Mas não apenas sucessos nacionais. Havia um pedaço da estante reservado a outros clássicos, como Shakespeare, Dostoiévski, Tolstoi e tutti quanti. 

Em uma livraria, cujo o nome vejo-me na obrigação de omitir, tive uma experiência diferente.

Já na porta, fui acossado com um volume do Felipe Neto. Vi também obras biográficas de pessoas que aparentavam ter menos idade do que o número de dedos totais que possuo nas mãos e nos pés. Era preciso garimpar para extrair algo engrandecedor de lá.

 


 

Não permitam que as livrarias morram, meus amigos. Estes locais cultivam as virtudes da alma como uma nobre senhora cultiva a sua horta. Mas me conte, você costuma frequentar sebos? Sua cidade possui muitos ou sequer possui? Compartilhe aqui os seus sebos preferidos e vamos fortalecer este comércio!

#ColunistaOficialAU

 

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Lucas Costa Souza
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