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Quarto de Despejo

Quarto de Despejo
Lethicia Roberta Barros Gonçalves
set. 2 - 4 min de leitura
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Carolina Maria de Jesus era uma anônima até o lançamento do seu primeiro livro, Quarto de Despejo. Publicado em agosto de 1960, a obra era uma reunião de cerca de 20 diários escritos pela mulher negra, mãe solteira, pouco instruída e moradora da favela do Canindé em São Paulo.

A fome aparece no texto com uma frequência. Personagem trágica, tão grande e tão marcante que adquire cor na narrativa tragicamente poética de Carolina, em sua rotineira busca da sobrevivência no lixo da cidade, ela descobriu que as coisas todas do mundo. Carolina viu a cor da fome — a Amarela.

"o céu, as árvores, as pessoas, os bichos ficavam amarelas quando a fome atingia o limite do suportável. "

Em seu texto, vemos como a autora procura sobreviver como catadora de lixo na metrópole de São Paulo, tentando encontrar naquilo que alguns consideram como sobra o que a mantenha viva.

Os relatos foram escritos entre 15 de julho de 1955 e 1 de janeiro de 1960. As entradas no diário são marcadas com dia, mês e ano e narram aspectos da rotina de Carolina.

Muitas passagens sublinham, por exemplo, a dificuldade de ser mãe solteira nesse contexto de extrema pobreza. Carolina encontra na fé a força para seguir em diante, pelos filhos.

Embora nunca se diga com todas as letras, a autora atribui a reação das vizinhas com os seus filhos pelo fato de ela não ser casada. 

"Elas alude que eu não sou casada. Mas eu sou mais feliz do que elas. Elas tem marido."

 

A redação de Carolina - a sintaxe do texto - por vezes foge ao português padrão e por vezes incorpora palavras rebuscadas que ela parece ter aprendido com as suas leituras.

Carolina fazia questão que seus filhos estudassem, via no estudo a possibilidade de mudar de vida e poder sonhar com novos horizontes. É importante marcar a sua luta em poder possibilitar um lugar melhor para os seus filhos e era com o estudo que eles teriam uma oportunidade de mudar, uma oportunidade de ser visível para a sociedade.

 

Ao invés de lidar com o pesar da cena de modo dramático e depressivo, a mãe é assertiva e escolhe seguir em frente encontrando uma solução provisória para o problema.

Além de falar sobre o seu universo pessoal e os seus dramas cotidianos, o Quarto de Despejo também teve importante impacto social porque chamou a atenção para a questão das favelas, até então um problema ainda embrionário na sociedade brasileira.

Foi uma oportunidade de se debater tópicos essenciais como o saneamento básico, a recolha de lixo, a água encanada, a fome, a miséria, em síntese, a vida em um espaço onde até então o poder público não havia chegado.

Carolina tinha constantes reflexões sobre política e sociedade, o que garante à obra passagens de grande valor para os leitores. Ela também tecia críticas aos políticos que só lembram da favela e dos seus pobres habitantes durante as eleições.

“… As oito e meia da noite eu ja estava na favela respirando o odor dos excrementos que mescla com o barro podre. Quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de visita com seus lustres de cristais, seus tapetes de viludos, almofadas de sitim. E quando estou na favela tenha a impressão que sou um objeto fora do uso, digno de estar num quarto de despejo” 

Podemos notar que o texto é atemporal e trata de questões que ainda hoje são comuns. Percebemos uma espécie de perpetuação, o texto é duro e pode parecer um tanto quanto ácido, mas devemos destacar como uma leitura que merece uma análise mais aprofundada e um olhar mais agudo. A leitura é importante e vale a reflexão.


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