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#Musicalizando: Racionais Mc's e a importância de 'Sobrevivendo no Inferno'

#Musicalizando: Racionais Mc's e a importância de 'Sobrevivendo no Inferno'
Liliane Carvalho
fev. 20 - 9 min de leitura
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“Refrigera minha alma e guia-me pelo caminho da justiça” Salmo 23,3

“E mesmo que eu ande no vale da sombra e da morte, não temerei mal algum porque tu estás comigo” Salmo 23,4

São essas duas passagens bíblicas que estão estampadas na frente e no verso de um dos maiores disco da história brasileira, de um dos maiores grupos do rap nacional.

No #Musicalizando de hoje venho trazer para vocês a importância de ‘Sobrevivendo no inferno’, do Racionais Mc’s, e um pouco dos motivos pelos quais essa é uma grande obra, da qual eu sou *muito* fã.

E se você caiu aqui de paraquedas, vem comigo, que antes de tudo eu vou contextualizar todo esse role, começando pela história do grupo.

Quem são os Racionais Mc’s?

O grupo se formou em 1988 a partir do encontro entre Pedro Paulo Soares Pereira (Mano Brown) e Paulo Eduardo Salvador (Ice Blue) – moradores do extremo sul de São Paulo – com Edivaldo Pereira Alves (Edi Rock) e Kleber Geraldo Lelis Simões (KL Jay) – moradores da zona norte – por meio do produtor cultural e ativista político Milton Sales, que conhecia tanto a cena do metrô São Bento, onde Brown e Blue já encostavam juntos, quanto a casa noturna Clube do Rap, na Bela Vista, que era dominada por KL Jay e Edi Rock, ambas na região central da famosa selva de pedra.

A inspiração para o nome veio de Tim Maia e seu disco intitulado ‘Racional’. Assim batizado, no mesmo ano de sua formação lançaram a coletânea ‘Consciência Black’, que contava com as faixas ‘Pânico na Zona Sul’, de Brown, e ‘Tempos Difíceis’, de Edi Rock e KL Jay. Dois anos depois, o grupo gravou seu primeiro disco, vendendo cerca de 200 mil cópias, ‘Holocausto Urbano’ tornou-se conhecido em todas as periferias paulistas.

Com o barulho que os dois primeiros LP’s fizeram, o grupo foi levado até as escolas públicas de SP para falar sobre racismo, violência policial e criminalidade, em um projeto chamado ‘RAPensando a educação’, que partiu da iniciativa da Secretaria da Educação. E no final do mesmo ano abriram, em São Paulo, o show do Public Enemy, um dos mais notáveis grupos de rap do mundo.

Após o EP ‘Escolha seu caminho’ (1992), os Racionais lançaram um de seus grandes marcos da carreira, e da história do hip-hop, o ‘Raio X do Brasil’ (1993). O álbum trouxe consigo muitas mudanças vindas do grupo, como uma nova postura diante da comunidade, e elevou o nome de Mano Brown entre os grandes compositores do Brasil, o que lhe rendeu o prêmio Sharp de compositor revelação.  Em 1997, em um projeto tipo “faça você mesmo” (do it yourself) do rap, inauguraram o próprio selo ‘Cosa Nostra Fonográfica’, e é com o lançamento do disco ‘Sobrevivendo no inferno’ que os Racionais alcançaram a projeção nacional, vendendo cerca de 1,5 milhão de cópias e atingindo todas as classes sociais.

O disco ‘Sobrevivendo no inferno’

Para entender à proporção que o álbum alcançou, é de extrema importância entender o que se passava no cenário brasileiro nos anos anteriores.

Em 2 de outubro de 1992, São Paulo foi palco do que é considerado o mais violento e brutal ataque da história do sistema prisional brasileiro: o massacre do Carandiru. Uma intervenção assassina da Polícia Militar do Estado de SP que teve como resultado a morte de pelo menos 111 detentos, a maioria réus primários, que não tiveram nem chance de defesa. Foi um extermínio puro e simples que até hoje não é reconhecido pelo Estado como tal, uma vez que os documentos oficiais tratam o episódio como uma “rebelião” ou “motim” do Pavilhão 9.

Num intervalo de poucos meses o país foi palco novamente de outros dois massacres que chocaram a todos. Em 23 de julho de 1993, quatro policiais militares atiraram contra cerca de 50 crianças e adolescentes em situação de rua que dormiam nas escadarias da igreja Candelária (RJ), o ato deixou 8 mortos e dezenas de feridos, o episódio ficou conhecido como chacina da Candelária. E, apenas um mês após o ocorrido, em 29 de agosto de 1993, mais de 30 policiais militares encapuzados e sem uniforme, assassinaram friamente 21 pessoas na chacina de Vigário Geral, e ao contrário do que foi alegado pela PM, nenhum dos mortos tinha ligação comprovada com o tráfico.

Essa sequência de tragédias que ocorreram em um intervalo de menos de um ano confirmavam, para quem quisesse enxergar, que o genocídio que ocorreu no Carandiru não foi um acidente, e se tornou uma ação comum que não se restringiu apenas às cadeias do país.

O cenário em que o país se encontrava se tornou palco para diversas mudanças no campo cultural, que posteriormente tornaria possível o “nascimento” do que se tornou um dos mais importantes fenômenos culturais do Brasil, um disco em que o massacre do Carandiru seria reconhecido como o acontecimento decisivo da nossa época, e que ocuparia, literalmente, o centro do álbum, consagrando-se como o revelador da maior verdade do Estado brasileiro, contra o qual era necessário reagir.

O ano é 1997 e o disco é ‘Sobrevivendo no inferno’, dos Racionais Mc’s.  O álbum conta com 12 faixas, entre elas estão algumas como ‘Fórmula mágica da paz’, ‘Mágico de Oz’, ‘Capítulo 4, Versículo 3’, e a principal delas ‘Diário de um Detento’, que é o resultado de uma parceria entre Jocenir, um dos sobreviventes do massacre do Carandiru, e Mano Brown, além disso, os cadernos de Jocenir circularam pelo presídio para serem aprovados pelo coletivo carcerário antes de sua versão final.

Todo esse conjunto de fatos, e acontecimentos que geraram o disco, o levaram a ter uma influência social.

A importância da obra

Sobrevivendo no inferno foi sendo reconhecido como uma das grandes obras-primas da música popular brasileira. E esse reconhecimento do valor estético e cultural levou a um impacto no cenário nacional que pode ser comparado, sem exageros, ao de outras grandes obras que pertencem aos mais diversos campos culturais, como Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, ou obras de Guimarães da Rosa, entre outros. E se, comparado em termos políticos e de críticas, é praticamente sem paralelo.

Toda essa repercussão foi ganhando espaço também no meio acadêmico, onde passou a aparecer em teses, artigos e dissertações. Uma das coisas que melhor representam essa influência toda é que, em 2015, por ocasião da visita do Papa Francisco ao Brasil, o então prefeito de São Paulo ofereceu o disco como presente do município ao sumo pontífice.

E voltando ao ramo acadêmico, o disco entrou na lista de leitura obrigatória da Unicamp, um dos mais prestigiados vestibulares do país, e se encontra na categoria poesia ao lado de sonetos do português Luís de Camões e da poetisa carioca Ana Cristina Cesar. Em 31 de outubro de 2018 foi publicada a primeira versão do livro ‘Sobrevivendo no inferno’, e essa iniciativa veio logo após a inclusão no vestibular.

A atuação dos Racionais Mc’s foi decisiva para fazer do rap mais do que uma simples representação da periferia. A radicalidade e o senso de “missão” presente nas produções ajudaram a desenvolver um espaço em que os cidadãos periféricos puderam se apropriar de sua imagem, e construir uma voz que mudaria a forma de enxergar e de vivenciar esse cenário no Brasil.

Sobrevivendo no inferno é a imagem mais bem construída de uma sociedade de raízes genocidas que se tornou humanamente inviável em diversas questões, e se tornou uma tentativa radical, com uma ideia e uma estética genial, de sobreviver a ela.

Arrisco a dizer para vocês, deixando o coração de fã de fora dessa, que é uma das maiores obras da década, e quem sabe até bem mais que isso, uma vez que a mensagem passada para os anos 90, ainda poderá ser usada por mais dos muitos anos que virão.

E se você chegou até aqui me conta nos comentários o que achou de toda essa influência, e se você já conhecia o grupo ou o álbum. Seu feedback é importante.

Eu fico por aqui, e deixo para você o link de Diário de um Detento.

Um beijo e um queijo, e até a próxima <3 


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