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"Ghost World" e o Absurdo que é tudo isso

Obs.: A seguinte análise contém spoilers da obra e da adaptação cinematográfica, e possíveis gatilhos para pessoas sensíveis. 

Para um leitor desavisado, “Ghost World” de Daniel Clowes pode ser algo massante. Publicada na própria revista de Clowes, a “Eightball”, durante a ida década de 1990, a história conta as desventuras (pois dizer que são aventuras, aqui, seria uma mentira) de Enid e Rebecca, que, após terminarem o colegial, se vêem em um turbilhão de emoções, onde os hormônios estão à flor da pele mas que o futuro parece algo muito confuso.

Republicado aqui no Brasil pela Editora Nemo, que vem trazido a obra de Clowes na íntegra, ou pelo menos seus trabalhos mais relevantes, em uma edição comemorativa de 20 anos, traz uma série de extras, como notas, esboços e ilustrações. Um trabalho primoroso para uma história em quadrinhos primorosa.

O que dizer sobre as “desventuras” das garotas?

 Como a própria sinopse diz, as garotas precisam levar sua amizade à um futuro de incertezas, com empregos pequenos e etc.. Que jovem nunca se viu assim? Terminado o colégio, o que fazer? Faculdade? Ou não? Trabalhar? Mas no quê? Daniel Clowes se compromete, e cumpre com louvor, a não só retratar essas indagações tão normais para qualquer jovem quanto para transmitir sua realidade, como passatempos (vendo televisão, e muitas vezes a criticando, mesmo que não haja nada a criticar) e a forma de se falar.

Ramon Vitral diz que para um leitor desavisado (tipo como eu disse no ínicio), a história pode parecer ser sobre o nada. Só duas garotas reclamando da vida, de todos e de tudo. Mas é mais do que isso: é sobre a descoberta do mundo, de suas incoerências, e que apesar de que tudo parece tão normal, nada é normal; tudo é um absurdo. Agora puxo Albert Camus, dizendo que nossa própria existência, e  consequentemente, nossa rotina, são coisas absurdas quando se pára para refletir. Guardem isso, voltarei nisso depois.

Os desenhos de Clowes, muitas vezes, não me pareciam feios, mas sim “não-bonitos”, acho que é pela realidade que ele quer passar. Há uma beleza singular na feiura, coisa que acredito que esteja presente só em “Ghost World”, embora o traço não mude muito em outras de suas obras. As cores usadas (durante) a HQ são tons frios, e não coloridos (irei voltar a falar disso mais para frente). 

Mas porque “Ghost World”? Durante a obra inteira, embora algumas vezes nem em primeiro plano, há pichações sobre isso. Uma mitologia própria, e não explicada, por Clowes em um micro universo. O leitor apenas aceita que há isso, sem razão aparente; talvez só como uma linguagem, tal como vemos pelo Rio de Janeiro à fora.

Agora voltando às cores: elas estão correlacionadas à atmosfera da história, que pode ser associada à Albert Camus.

Vou explicar.

As cores são frias para mostrar o quanto o mundo é frio; melancólico. Não ligando para quem você é, ou o que você pensa. Ele está aqui, no frio sentimento da modernidade. As cores transmitem isso. E, de acordo com Camus, quais as saídas para o Absurdo? Viver com isso, um dia de cada vez em uma rotina que vai te esmagando aos poucos; procurar Deus, uma força maior; se suicidar, afinal, nada tem sentido mesmo; ou abraçar o Absurdo que é tudo isso.

Qual dessas a história aborda?

No YouTube, a cena final do filme adaptado da hq (que inclui no elenco, como Rebecca, Scarlett Johansson, antes de adaptar outros quadrinhos como em "Os Vingadores" e "Ghost in the Shell"; e que recebeu uma nominação ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado), onde Enid pega o ônibus e parte para um futuro desconhecido (assim como na hq), é discutida se ela cometeu ou não suicídio.

Ou a cena (ou quadros) seria sobre dizer um “adeus” à infância, sendo o ônibus sumindo aos poucos o amadurecimento de todos os jovens? 

Pode ser as duas coisas, ou nenhuma. Isso é a ironia que cerca toda a obra; duas coisas que podem ser ditas ao mesmo tempo. Mas uma questão é certa: a melancolia cerca a obra. Seja ela sobre a melancolia que segue na vida, até deixá-la por conta própria, ou de deixar o passado para trás, crescendo, e indo para um mundo Absurdo. Em ambos os casos, Camus estava certo.

São muitas nuances que tornam a hq de Clowes um clássico, que deve ser lida e relida. Um gibi magistral, que das páginas de uma revista independente de quadrinhos, veio para nos mostrar que a juventude ainda existe, e que precisa, como nunca antes, de ajuda psicológica.

Uma nota:

No início da edição da Nemo, há uma pequena história que nos mostram três possíveis futuros para Enid e Rebecca. Mas isso é como uma história, meio que, não totalmente, à parte. Uma espécie de “e se…?”. Pelo menos é como eu, vós que vos fala, interpretei, uma vez que são mostradas três versões, e ainda que quebra-se a quarta parede. A história acaba sem conclusão definida. A conclusão que se alcança é: “queremos um futuro melhor”, e quem não quer?

Comunidade do Estágio
João Vitor Muniz Buarque
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Um estudante de animação, amante de cinema, games (audiovisual em geral), quadrinhos, filosofia e etc.. Não sei o que o futuro me reserva, mas espero que seja como em um livro de Thomas Pynchon.

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