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Dia Internacional das Meninas e Mulheres na Ciência - A luta por trás dessa data

Dia Internacional das Meninas e Mulheres na Ciência - A luta por trás dessa data
Mirella Kämpffe
fev. 25 - 8 min de leitura
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Um estudo publicado em dezembro de 2017 pela revista científica PeerJ indicou que, em geral, as pesquisadoras brasileiras recebem bolsas mais baixas do CNPq, se comparadas aos pesquisadores homens. Esse resultado demonstra grande significância quando se discute a questão da diversidade de gênero no estudo da ciência.

É notório que, hoje, a discrepância no que diz respeito à quantidade de mulheres vs. homens nas áreas de STEM (sigla para Science, Technology, Engineering and Mathematics) é reflexo de um histórico preconceituoso. Nesse sentido, observamos que as raízes desse passado desigual afetam até hoje a maneira como vivemos em sociedade. 

Acreditava-se, antigamente, que mulheres eram menos capazes intelectualmente; que o papel do sexo feminino era servir seus maridos e ficar em casa cuidando dos filhos, enquanto que o homem representava a virilidade, exercendo a função de trabalhar e, assim, sustentar a família. A mulher não tinha qualquer autonomia para expor suas opiniões, reivindicar seus direitos ou decidir sobre qualquer coisa que fosse. 

Parece absurdo mas, houve tempo, na Idade Média, em que se questionava se a mulher possuía verdadeiramente uma alma. Na Grécia antiga, Pitágoras escreveu: "Existe o princípio bom que criou a ordem, a luz e o homem, e um princípio mau que criou o caos, as trevas e a mulher". Eurípedes considerava a mulher "o mais temível dos males". Nas leis de Manu, encontramos: "A mulher não pode governar-se por si mesma". Na Rússia, era norma de sabedoria popular que para cada dez mulheres existia  apenas uma alma. A “coisificação” do feminino se estendeu durante longos anos, tendo em vista que algumas de nossas próprias avós, nos anos 70, não tinham CPF próprio; esse era compartilhado com seu marido. 

Angela Davis What GIF by Women's History Month

Durante muito tempo esse pensamento foi instaurado na sociedade e prolongado por décadas. Felizmente, a realidade de hoje mostra que o sistema patriarcal tem perdido cada vez mais seu poder; meninas e mulheres têm conquistado, dia após dia, maiores espaços na sociedade e, por conseguinte, também na ciência. Mas como essa disruptura de padrões se desenvolveu?

Em meados do século XIX, com o advento e influência dos ideais da Revolução Francesa e da Revolução Industrial, a luta pela valorização da mulher começou a ganhar espaço. Foi quando o movimento feminista tomou força e as mulheres começaram ir às ruas reivindicar direitos jurídicos e políticos.

11 Photographs of Historic Women's Strikes Around the World | Feminism  photography, Equality, Womens equality

Nesse cenário, grandes figuras femininas como Olímpia de Gouges e Simone Beauvoir exerceram importante papel. A partir daí, os ideais feministas se propagaram cada vez mais com o passar dos anos, e a sociedade foi, aos poucos, se desvinculando daquele pensamento retrógrado de inferioridade feminina. No Brasil, um grande marco foi quando as mulheres conquistaram o direito ao voto no ano de 1932, uma situação bastante atual, levando em conta a diferença de apenas 89 anos do ano em que vivemos.

Podemos citar, ainda, grandes nomes de mulheres que desempenharam papéis de extrema importância na ciência; um exemplo é Marie Curie. Talvez a figura feminina mais famosa na ciência, Marie foi responsável pela descoberta da radioatividade e dos elementos químicos rádio e polônio. Foi a primeira mulher a ganhar um Prêmio Nobel de Ciência, e a primeira pessoa do mundo a ganhá-lo duas vezes. O de Física em 1903, por demonstrar a radioatividade natural, e o de Química em 1910, pela descoberta dos novos elementos.  

Graças ao esforço e à luta dessas mulheres no passado, hoje somos capazes de viver em condições muito mais justas no âmbito educacional e profissional. Mulheres têm se mostrado as verdadeiras protagonistas de sua própria história, desempenhando papéis de liderança e provando que somos capazes de muito!

Não é à toa que em 2015 a ONU, em iniciativa com a UNESCO, decidiu criar o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência. O dia 11 de fevereiro representa, agora, uma data para celebrar o sucesso da luta de nossas antepassadas pela igualdade. Uma data para reconhecer os papéis de importância que milhares de mulheres exercem na ciência atualmente; uma data para exaltar a união do gênero feminino pelo mesmo propósito: confirmar que temos potencial de contribuir (e muito) para o estudo científico no mundo!

Isso se reflete em números: dados extraídos do CNPq indicam que, de 1997 até 2002, o número de pesquisadoras e pesquisadoras-líderes aumentou 3,7% e 3,4%, respectivamente, indicando uma maior inserção de mulheres no sistema não apenas como estudantes, mas como protagonistas de maior reconhecimento e maior qualificação hierárquica.

Nicole Kidman Feminism GIF by Golden Globes

Embora o progresso seja notório, ainda estamos distantes de uma realidade ideal no que diz respeito à equidade de gênero; dados recentes do Instituto de Estatística da Unesco mostram que apenas 28% de pesquisadores mundiais são do gênero feminino, ou seja, menos de ⅓ dos estudos científicos são protagonizados por mulheres. Apesar da notoriedade e do espaço que as mulheres conquistaram nas últimas décadas, esse dado ainda é preocupante e necessita aprimoramento.

Tal quadro se reflete também no Brasil, onde apenas 30% do total de bolsas de pesquisa destinadas a Ciências Exatas e da Terra e nas Engenharias e Computação pertencem a mulheres. Ao ponderar a porcentagem de bolsas-ano por sexo e modalidade no pais, as mulheres se destacam, pois detêm de grande parte das bolsas de iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado. Entretanto, nas bolsas de Produtividade em Pesquisa elas são minoria, recebendo apenas 36% das bolsas disponíveis.

Este último dado é importante, pois tal bolsa só é concedida para pesquisadores de reconhecida competência, sendo um importante indicador de quem recebe recursos e é apoiado. Ao longo da última década, não houve mudança significativa na partição por sexo dessa bolsa, de fato, o que se tem é a persistência deste distanciamento, contribuindo para a imagem errônea da mulher. 

Quando falamos de diversidade de gênero na indústria, é necessário destacar a importância da representatividade feminina para a melhora desse cenário. É preciso dar destaque e espaço para mulheres que fizeram carreira, que obtiveram sucesso, que têm uma posição de liderança, para dar visibilidade ao público feminino nas áreas de STEM. Assim, cada vez mais meninas se sentirão confortáveis em seguir carreiras na ciência, pois irão se inspirar nessas trajetórias de sucesso. Destaca-se, então, a importância da criação de iniciativas e projetos que busquem atender a essa problemática, focando estimular a diversidade de gênero na academia e na indústria.

É de se comemorar que as mulheres tenham, de fato, conquistado maiores espaços nas áreas tecnológicas e científicas - mas isso não quer dizer que a luta acabou. É preciso reconhecer que o estereótipo masculino associado às áreas de exatas ainda deixam suas raízes no atual cenário acadêmico e profissional que vivemos. Por isso, é de suma importância que o trabalho e estudo de mulheres nessas áreas sejam expostos, reconhecidos e exaltados sempre que possível.

Feliz Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência!

 

 

 

Referências

VALENTOVA, Jaroslava.; OTTA, Emma; SILVA, Maria Luisa; MCELLIGOTT, Alan G. Underrepresentation of women in the senior levels of Brazilian science. PeerJ, 2017. Disponível em: <https://peerj.com/articles/4000/>. Acesso em:  08 de jan. de 2021.

OLIVEIRA, A. J. Mulheres cientistas ganham 20% a menos do que homens nos EUA. Abril, 2019. Disponível em: <https://super.abril.com.br/comportamento/mulheres-cientistas-ganham-20-a-menos-do-que-homens-nos-eua/>. Acesso em:  08 de jan. de 2021.

LETA, Jacqueline. As mulheres na ciência brasileira: crescimento, contrastes e um perfil de sucesso. Scielo, 2003. Disponível em: <https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-40142003000300016&script=sci_arttext&tlng=pt>. Acesso em:  08 de jan. de 2021.

COLL, Liana. Mulheres na Ciência: professoras falam sobre os desafios por maior representatividade. Unicamp, 2020. Disponível em: <https://www.unicamp.br/unicamp/index.php/ju/noticias/2020/02/11/mulheres-na-ciencia-professoras-falam-sobre-os-desafios-por-maior>. Acesso em:  09 de jan. de 2021.

Representatividade feminina na ciência: importância e desafios. Summit Saúde, 2020. Disponível em: <https://summitsaude.estadao.com.br/tecnologia/representatividade-feminina-na-ciencia-importancia-e-desafios/>. Acesso em:  10 de jan. de 2021.

STEFANELLO, Betina L.; BRAGA, Maria Lúcia de S.; TAVARES, Isabel. Participação das mulheres nas ciências e tecnologias: entre espaços ocupados e lacunas. 2015. 


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