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Biafra não é apenas um cantor

Biafra não é apenas um cantor

Se me perguntassem há uns 3 meses atrás se eu sabia o que era Biafra, eu diria que era um cantor brasileiro de músicas românticas. E não, não é brincadeira. Fiz até mesmo um teste ao digitar ‘’Biafra’’ no Google e a primeira coisa que aparece são algumas músicas do tal cantor. O que de cara já me faz questionar como tem se categorizado a importância de muitos fatos na nossa mídia.

Este trabalho é tanto um relato que tento fazer com um apanhado de Narrativas do próprio povo Nigeriano, com aquilo que nos é disponível atualmente na internet sobre o assunto, provocações feitas na matéria ‘’Mídia e Globalização’’ e o pontapé inicial advindo do livro ‘’Meio Sol Amarelo’’ da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie.

Antes de discorrer sobre toda a história (ou ao menos aquela em que atravessou minha bolha e consegui alcançar) gostaria de compartilhar uma questão que me veio de acordo com um dos primeiros temas debatidos na aula e uma das coisas que mais me atravessou ao saber da história da Guerra de Biafra.

E o primeiro questionamento é sobre ele, um dos fatores indispensáveis para termos contexto: o tempo. 

A frase colocada em um dos slides da disciplina ‘’Narrar é dispor a experiência de vida segundo os tempos que nos discorrem.’’ fez com que uma primeira iluminação (e confesso que, inquietação) surgisse. 

Questiono-me ingenuamente: Seria o tempo que me discorre diferente dos que vivenciaram aquela guerra? E não pergunto apenas em relação à contemporaneidade, pois essa eu já sabia responder desde sempre. Mas questiono em relação à significação e minha imensa incapacidade de narrar essa história como ela merece. 

Questiono todos os meus livros da escola de história, que no máximo me mostraram fotos de crianças morrendo de fome. E a narrativa que acessei era apenas isso, em um passar de folhas de um livro na quarta-série. Para o povo da Nigéria, milhões de mortos. Anos de guerra. E muito mais tempo de genocídio do que aparece na maioria das fontes que tentei achar novas informações.

A guerra que ‘’oficialmente’’ começou em 1967 já vinha de antes. Os conflitos internos começaram bem mais cedo que isso. Você deve se lembrar de quando na escola nos falaram da divisão da África entre os países imperialistas, na famosa Conferência de Berlim (1885-1887), na qual África foi dividida com a participação de 14 países, que obviamente, não levaram em consideração as diversidades históricas e religiosas de povos que habitavam o continente e os atritos que disso poderiam surgir.

E essas diversidades (de aproximadamente 250 grupos étnicos) trazem disputas até hoje. Mas voltando a um tempo antes do início oficial da Guerra, os embates entre povos já se dava por divergências religiosas e disputas geopolíticas muito ligadas aos recursos naturais (principalmente o petróleo que ficava na região sudeste da Nigéria). O país tornou-se independente do Reino Unido em 1960, e conflitos internos começaram gerados pela supremacia e acesso aos recursos já citados. 

Na época a Nigéria tinha uma população de mais de 45 milhões de habitantes e dos cerca de 250 grupos étnicos, quatro eram maioria:

 

Hausa e Fulani: viviam no norte do país, maioria muçulmanos e representavam 29% da população nigeriana. 

 

Iorubás: viviam na região sudoeste e eram praticantes geralmente da religião tradicional iorubá, alguns muçulmanos e outros cristãos.

 

Igbos: viviam no sudeste que foi onde foi proclamada a independência de Biafra - a maioria deles praticamente do cristianismo. A escritora Chimamanda é de origem Igbo e é esse o ponto de vista que podemos perceber na narrativa de ‘’Meio Sol Amarelo’’.

 

Em 29 de julho de 1966 houve o assassinato do ditador da Nigéria general Johnson Aguiyi-Ironsi. O novo ditador general Yakubu “Jack” Gowon acusou os nativos da região de Biafra de ter provocado o assassinato. Suas tropas iniciaram uma matança na região de Biafra o que provocou a morte de cerca de 30.000 igbos e aproximadamente um milhão de igbos refugiados.

Todas essas mortes e necessidade de se refugiar raramente apareceram nos vídeos em que busquei sobre a história da guerra. Questiono-me se é pelo fato de todos esses embates terem sido causados por conta da divisão imperialista do continente africano como quem divide uma pizza. Afinal, se falassem mais sobre isso, seria difícil manter a justificativa ideológica, o falso altruísmo dos países imperialistas em colonizar para ajudar na qualidade de vida, desenvolvimento, educação etc.

Em 30 de maio de 1967, Odumegwo Ojukwuo, líder da região de Biafra, declarou a independência da República do Biafra, desencadeando uma guerra civil considerada uma das mais sangrentas e que segundo alguns textos, foi a que mais gerou comoção e solidariedade ao redor do mundo. O que no mínimo é curioso, já que os países ‘’solidários’’ e outros com muito poder deixaram a guerra acontecer por 3 anos sem interferir de fato. O que acontecia na verdade, é que alguns países apoiavam à guerra, de acordo com seus interesses em ter benefícios com os recursos do país e influência nas decisões.

A Holanda apoiou General Ojukwo e a Grã-Bretanha decidiu apoiar o outro lado dando armas ao exército da Nigéria. E assim, seguia a guerra às custas dos mais “fracos” ou podemos dizer, os mais explorados. E mesmo quando o número de  mortos já ultrapassava os milhões, a ONU não interferiu na “questão nigeriana”.

As mortes se deram em grande parte por fome, já que as tropas nigerianas fizeram um cerco à região de Biafra, no qual tentaram matar de fome os separatistas e conseguiram. Os chamados ‘’bebês de Biafra’’ ficaram conhecidos em todo mundo e possivelmente você já viu uma foto da desumana situação. Dezenas de milhares de crianças e idosos morreram de fome no verão de 1968.

Isso chamou a atenção de muitas pessoas ao redor do mundo, que pediam pelo fim da guerra. Em um comício realizado em 1968 contra a guerra de Biafra o alemão Gunter Grass disse:

“Como alemães, devemos saber o que estamos dizendo quando usamos a palavra genocídio, porque o silêncio torna alguém cúmplice.”

 -Gunter Grass 

Mas belos discursos estão longe de ter o mesmo poder da ganância econômica e de dominação dos países por trás da guerra.

Vale lembrar, que a Guerra de Biafra aconteceu no contexto da Guerra Fria e podemos questionar mais uma vez, como eram (e ainda são) dadas as prioridades para atenção e resolução de problemáticas humanas. Não só enquanto a guerra acontecia, mas também na disputa simbólica por memória que esses dois ‘’eventos’’ têm na educação e mídia até hoje. Mais se sabe nas escolas sobre a Guerra Fria (que nem foi uma guerra de fato) do que a Guerra de Biafra. E essa tentativa de apagamento da memória chega até mesmo na própria Nigéria.

“A história do nosso país tem sido muito brutal, a geração antiga sofreu grandes traumas. [...] Nós a varremos para debaixo do tapete, como se não existisse. Mas sem conhecer o passado, vamos repetir os mesmos erros”, explica Diekoye Oyeyinka, autor nigeriano que conta também que só ouviu falar da guerra de Biafra aos 14 anos e foi fora da escola.

A fala do autor me remeteu a outra citação que vimos em aula e traz a reflexão sobre o quanto essa varredura da história para debaixo do tapete acaba minando a identidade dos nigerianos até hoje.

“A identidade é um lugar que se assume uma costura de posição e contexto, e não uma essência ou substância a ser examinada. (HALL,2003);”

Até hoje não se tem uma apuração oficial do número de mortos na Guerra de Biafra, mas estima-se que cerca de 3 milhões de pessoas morreram. E algumas fontes afirmam que foi a guerra com mais mortos depois da Segunda Guerra Mundial.

A partir do meu horizonte, sou incapaz de falar da trama nigeriana com domínio ou sequer um bom nível de competência, mas convido à você que tire um tempo para se debruçar sobre essas questões que não pararam de me transpassar desde que as descobri.

Deixo aqui algumas sugestões:

Meio Sol Amarelo - Livro por Chimamanda Ngozi Adichie

An Honest Explanation of the Nigerian Civil War | The Biafran Story Nigeria vs Biafra Biafra Civil War Documentary 

 

 

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