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Auto da Barca do Inferno

Auto da Barca do Inferno
Lethicia Roberta Barros Gonçalves
ago. 21 - 5 min de leitura
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Na peça Auto da Barca do Inferno, Gil Vicente coloca vários personagens numa situação limite. Todos estão mortos e chegam a um porto onde há duas embarcações: uma guiada pelo Anjo, que conduz ao paraíso; a outra, comandada pelo Diabo e seu companheiro, que vai para o inferno. Os personagens se apresentam em uma espécie de desfile, e no final cada um terá de enfrentar seu destino.

Esses personagens não representam indivíduos definidos, mas tipos sociais. Ou seja, não têm características psicológicas particulares. Servem como espécies de modelo, para exemplificar qual era, segundo Gil Vicente, o comportamento de determinados setores da sociedade da época. Por isso, podem ser denominados personagens alegóricos.

As alegorias são imagens que servem de símbolo a interpretações, como representações de uma situação ou de um setor social. O autor se inspirou bastante no teatro alegórico medieval, puramente cenográfico, e também nos momos – manifestações populares em que figuras fantasiadas representavam os vícios e as virtudes. Os autos eram representações comuns na Idade Média, em geral de conteúdo satírico ou alegórico. Publicado em 1517, o Auto da Barca do Inferno é, de acordo com o autor, um “auto de moralidade”.

Esses personagens não representam indivíduos definidos, mas tipos sociais. Ou seja, não têm características psicológicas particulares. Servem como espécies de modelo, para exemplificar qual era, segundo Gil Vicente, o comportamento de determinados setores da sociedade da época. Por isso, podem ser denominados personagens alegóricos.

Os mortos começam a chegar. Um fidalgo é o primeiro. Ele representa a nobreza, e é condenado ao inferno por seus pecados, tirania e luxúria. Ainda se defende dizendo que deixou na outra vida quem rezasse por ele, argumento destruído pelo diabo. Aqui, devemos ter nota que nessa peça, por exemplo, um fidalgo com um pajem e uma cadeira são uma alegoria para toda a nobreza ociosa de Portugal. 

Um agiota chega a seguir. Ele também é condenado ao inferno por ganância e avareza. Tenta convencer o anjo a ir para o céu, mas não consegue. Também pede ao diabo que o deixe voltar para pegar a riqueza que acumulou, mas é impedido e acaba na barca do inferno.

O terceiro indivíduo a chegar é o parvo - um ingênuo. O diabo tenta seduzir a entrar na barca do inferno; quando o parvo descobre qual é o destino dela, vai falar com o anjo. Este, se estima por sua humildade e permite a sua entrada na barca do céu.

A alma seguinte é a de um sapateiro, com todos os seus instrumentos de trabalho. Durante sua vida enganou muitas pessoas, e tenta enganar também o diabo. Como não consegue, recorre ao anjo, que o condena como alguém que roubou do povo.

O frade é o quinto a chegar com sua amante. Foi, porém, condenado ao inferno por falso moralismo religioso. Brísida Vaz, feiticeira e alcoviteira, é recebida pelo diabo, essa mulher prostituiu muitas meninas, e "postiço" nos faz acreditar que  seiscentos homens foram enganados pois dizia que tais meninas eram virgens. De judeus e "cristãos novos" A seguir, é a vez do judeu, que chega acompanhado por um bode. Encaminha-se direto ao diabo, pedindo para embarcar o diabo chega a recusar, porém acaba aceitando em seguida.

O corregedor e o procurador, representantes do judiciário, chegam, a seguir, trazendo livros e processos. Quando convidados pelo diabo para embarcarem, começam a tecer suas defesas e vão falar com o anjo. Na barca do céu, o anjo os impede de entrar: são condenados à barca do inferno por manipularem a justiça em benefício próprio.

Corregedor - Ó arrais dos gloriosos,
passai-nos neste batel!
Anjo - Oh, pragas pera papel
pera as almas odiosos!
Como vindes preciosos,
sendo filhos da ciência!
Corregedor - Oh, habetatis, clemência
e passai-nos como vossos!
Parvo - Hou, homem dos breviários,
rapinastis coelhorum
et pernis perdigotorum
e mijais nos campanários!"

 

Nesse trecho notamos o realismo linguístico de Gil Vicente. O Corregedor utiliza termos em latim para se defender. O Parvo faz, então, uma hilariante paródia de seu discurso: "rapinastis coelhorum et pernis perdigotorum", ou seja, "rapinastes - roubastes - coelhos, pernis e perdizes".

O próximo a chegar é o enforcado, que acredita ter perdão para seus pecados, pois em vida foi julgado e enforcado, mas também é condenado a ir ao inferno por corrupção. Por fim, chegam à barca quatro cavaleiros que lutaram e morreram defendendo o cristianismo. Estes são recebidos pelo anjo e perdoados imediatamente.

O texto é rico e flui de maneira a transportar o leitor para dentro do livro, compreendendo não só a essência da época como o cuidado para tratar de questões delicadas e criticar o ambiente arraigado de dogmas; devemos salientar que mesmo havendo críticas ao poder vigente na época - a igreja católica, podemos perceber também o respeito pela religião.

 

 


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